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A volta dos IPOs? Entenda por que empresas brasileiras escolheram agora para retornar à bolsa

A volta dos IPOs? Entenda por que empresas brasileiras escolheram agora para retornar à bolsa

Entenda por que empresas brasileiras optam pelo mercado americano e o que esperar à frente

Após um longo período de “ressaca”, as primeiras empresas brasileiras começaram a retornar à bolsa de valores. A primeira oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) em quatro anos ocorre na quinta-feira (29), com o banco digital PicPay.

Outro IPO anunciado recentemente foi o do Agibank, ainda sem data definida. Em ambos os casos, as empresas optaram por listar suas ações nos Estados Unidos.

Essa não é a primeira vez que uma empresa brasileira escolhe o mercado americano para abrir capital — e essa preferência também lança luz sobre outros aspectos do mercado nacional, que limitam a demanda por IPOs no país.

Segundo especialistas consultados pelo g1, o movimento reflete, em grande parte, as taxas de juros elevadas do país, atualmente em 15% ao ano — o maior patamar em 20 anos.

Só em 2021 — ano em que o país registrou mais de 40 IPOs —, a Selic subiu 7,25 pontos percentuais (p.p.), de 2% em janeiro para 9,25% em dezembro. Apesar da alta, a taxa de um dígito permanecia atrativa para empresas que buscavam financiamento no mercado de capitais.

Desde então, porém, a Selic entrou em trajetória de alta, até alcançar 15% em junho do ano passado — um aumento de 5,75 p.p. em relação a 2021.

“Essa é uma parte importante do quebra-cabeça que acabou se desfazendo nos últimos anos. À medida que os juros subiram, fundos de equity perderam muito dinheiro”, diz o corresponsável pela área de banco de investimentos do Bank of America (BofA) no Brasil, Bruno Saraiva.

Isso ocorre porque juros mais altos tornam a renda fixa mais atrativa. Com menos recursos direcionados à bolsa, os volumes negociados caem e as carteiras de renda variável ficam sob pressão.

O resultado é um menor apetite por risco e uma demanda reduzida por novas ofertas de ações.

Nos EUA, o ciclo de cortes de juros começou em setembro do ano passado, quando o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) reduziu as taxas em 0,25 p.p., para a faixa de 4% a 4,25%. Desde então, realizou mais dois cortes. Atualmente, as taxas estão na faixa de 3,50% a 3,75%.

Segundo Leonardo Resende, superintendente de empresas e mercado de capitais da B3, esse não é o único fator que explica os recentes lançamentos de empresas brasileiras nos mercados americanos.

No caso do PicPay, outras empresas do setor financeiro e de pagamentos também estão listadas em Wall Street, como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP.

“Abrir capital no exterior não é uma solução com resposta única para todos os casos. Vemos algumas companhias testando o mercado americano, mas também temos conversas com empresas interessadas em fazer uma emissão de ações na B3”, completa Resende.

Para os especialistas consultados pelo g1, a expectativa de que o Banco Central do Brasil (BC) inicie o ciclo de cortes já no primeiro trimestre traz uma visão mais otimista para o mercado brasileiro de IPOs nos próximos meses.

Dados do último boletim Focus indicam que a Selic deve terminar este ano em 12,25% ao ano, uma redução de 2,75 p.p. em relação ao patamar atual.

Além dos juros, fatores como o cenário geopolítico global e os sinais de compromisso com a trajetória das contas públicas por parte do novo governo eleito no Brasil também estão no radar de investidores e empresas para o mercado de ações.

“Estamos cautelosamente otimistas para 2026, mas ainda será apenas o início de uma retomada, com poucas operações no Brasil”, conclui Saraiva.

“Se houver uma agenda de reformas com ajuste fiscal em 2027, independentemente do governo, e uma trajetória contínua de queda dos juros, acredito que voltaremos a um cenário de atividade muito maior no mercado de capitais brasileiro.”

Touro de Wall Street, localizado no distrito financeiro de Manhatttan. — Foto: Carlo Allegri/Reuters

Fonte: G1 Globo

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