Audiências em Washington: Brasil tenta barrar tarifa de 25%; o que indústria e agro vão alegar
Começam nesta segunda-feira (6) as audiências públicas do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), etapa decisiva da investigação aberta sob a Seção 301 que propõe uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Representantes da indústria e do agronegócio do Brasil participarão para sustentar que a sobretaxa atingiria exportadores brasileiros e também empresas, consumidores e cadeias produtivas norte-americanas. Em paralelo, equipes técnicas dos dois governos devem se reunir nesta semana para preparar uma última rodada de negociações de alto nível antes de 15 de julho, prazo em que Washington decidirá se avança com as tarifas. Entre os participantes brasileiros estão a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), além de representantes de setores como café, arroz, açúcar, etanol de milho, ferro-gusa, rochas ornamentais, madeira, papel, calçados, mel e propriedade intelectual. A Fiesp defenderá que a tarifa proposta não tem justificativa técnica nem econômica e pode impactar empresas e consumidores de ambos os países. Em São Paulo, os segmentos mais expostos são os de maior valor agregado, como máquinas e equipamentos, autopeças, alimentos industrializados, madeira, móveis e outros manufaturados. Segundo a CNI, há estimativas de impacto caso a medida seja adotada, e a entidade pretende rebater quatro pontos levantados pela investigação dos EUA — itens não detalhados no texto. O presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Azevêdo, afirmou que as acusações do USTR não se sustentam. A investigação questiona acordos do Brasil com países como México e Índia, sob a alegação de concessões tarifárias setoriais. O governo brasileiro contrapõe que esses entendimentos são legítimos, conformes às regras da OMC e não configuram prática sujeita a sanções comerciais. Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC, acrescenta que a tarifa não produziria os efeitos pretendidos e elevaria custos nas cadeias produtivas do Brasil e dos EUA, pressionando preços ao consumidor e prejudicando empresas dos dois lados. Na quarta-feira (1º), o Brasil enviou resposta formal aos EUA, assinada pelo chanceler Mauro Vieira, argumentando que críticas ao Pix e a decisões do Supremo Tribunal Federal não dizem respeito a comércio, mas a divergências sobre políticas internas. Para Azevêdo, embora a defesa técnica seja consistente, a solução exigirá articulação política contínua. A CNI sustenta que a tarifa adicional de 25% carece de base jurídica, econômica e estratégica e que não há evidências de discriminação a empresas americanas no Brasil. Para a entidade, a relação bilateral é complementar e uma sobretaxa encareceria toda a cadeia produtiva. A CNI defende a priorização de negociações entre os governos e aponta que a principal preocupação do setor é a incerteza causada por mudanças sucessivas na política comercial dos EUA, o que dificulta o planejamento das empresas. A Abimaq pedirá a exclusão do setor de máquinas e equipamentos de qualquer tarifa adicional, argumentando que o comércio entre Brasil e EUA se dá em cadeias integradas, não em concorrência direta. Os EUA são o principal destino das exportações brasileiras do setor, cerca de um quarto das vendas externas. Em 2025, tarifas impostas pelos americanos levaram a queda superior a 9% nessas exportações. Segundo a entidade, 82% das vendas brasileiras de máquinas aos EUA ocorrem entre empresas do mesmo grupo (matriz americana e filial no Brasil), evidenciando alta integração produtiva. A diretora de Comércio Exterior da Abimaq, Patrícia Gomes, afirma que muitos equipamentos são feitos sob encomenda, passam por certificações e dependem de relações de longo prazo, o que torna a substituição de fornecedores difícil e custosa. Uma ruptura elevaria custos na indústria americana e afetaria investimentos em construção, logística, mineração, energia e transporte. Embora defenda a exclusão integral, a Abimaq considera mais provável a ampliação da lista de produtos isentos. O Sindifer, que representa produtores de ferro-gusa em Minas Gerais, pedirá a exclusão do produto, classificado como essencial para siderúrgicas dos EUA, sem relação com os temas investigados e de difícil substituição. Cerca de 83% das exportações brasileiras de ferro-gusa têm como destino os EUA, e a produção nacional utiliza carvão vegetal de florestas plantadas, o que reduz emissões de carbono. No agronegócio, representantes de mel, café solúvel e pescados participarão das audiências para evitar a nova tarifa. A estratégia é mostrar que a medida pode pressionar preços ao consumidor, elevar a inflação e impactar cadeias produtivas dentro da economia americana. A CNA, que representa mais de 5 milhões de produtores, afirma que as tarifas prejudicam uma relação comercial considerada complementar. Em manifestação ao USTR, a entidade sustenta que os acordos do Brasil com México e Índia respeitam a OMC e não causam prejuízos aos EUA. Segundo a CNA, esses acordos representam cerca de 1,9% das importações brasileiras, enquanto os EUA seguem como o segundo maior fornecedor do mercado do país. Como alternativa às tarifas, a CNA propõe reforçar a cooperação em agricultura sustentável, biocombustíveis e facilitação de comércio, destacando a dependência do agro brasileiro de insumos importados dos EUA.
Fonte: G1 Globo
Fonte: G1 Globo