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Bilhões em jogo: por que a Braskem pediu recuperação extrajudicial e quanto tempo a crise pode durar

Bilhões em jogo: por que a Braskem pediu recuperação extrajudicial e quanto tempo a crise pode durar

A decisão da Braskem de recorrer à recuperação extrajudicial marca o capítulo mais recente de uma crise que se estende por anos, alimentada por três vetores: os custos bilionários do desastre geológico em Maceió, a prolongada compressão de margens na indústria petroquímica global e o elevado endividamento. O conjunto dessas forças deteriorou a capacidade de geração de caixa e a regularidade no pagamento de obrigações da companhia.

A origem da crise financeira se confunde com o desastre ambiental em Maceió. A extração de sal-gema na capital alagoana começou na década de 1970, conduzida pela então Salgema Indústrias Químicas S.A., que deu origem à Braskem. Décadas depois, sinais de instabilidade no solo surgiram em bairros da cidade, levando a um dos maiores deslocamentos urbanos já registrados no país: mais de 14 mil imóveis foram desocupados e cerca de 60 mil pessoas foram afetadas.

Para compensar e reparar danos, a Braskem firmou acordos com autoridades locais. Em 2023, comprometeu-se a pagar R$ 1,7 bilhão ao município de Maceió. Em novembro de 2025, celebrou outro acordo com o governo de Alagoas, no valor de R$ 1,2 bilhão. Paralelamente, criou um programa de compensação financeira e de apoio à realocação dos moradores das áreas afetadas, que somou mais de R$ 4,2 bilhões desembolsados até o fim de 2025, segundo o balanço do quarto trimestre daquele ano.

No front operacional, a companhia também foi pressionada pelo ambiente internacional. A indústria petroquímica viveu um ciclo de produção elevada, queda de preços e demanda mais fraca em várias regiões, reflexo de inflação persistente e juros altos, o que afetou a rentabilidade do setor. A Fitch projeta spreads petroquímicos baixos ao menos até 2028. Na Braskem, esse quadro se refletiu em 2025: o EBITDA recorrente foi de US$ 557 milhões, retração de 49% ante o ano anterior.

Com margens comprimidas e custos crescentes, a situação financeira se agravou. No fim do ano passado, a dívida líquida alcançava US$ 7,5 bilhões, e a alavancagem chegou a 14,7 vezes a geração de caixa. Na B3, as ações acumulam queda de cerca de 82% desde o início da crise em Maceió, passando de R$ 42,05 em fevereiro de 2018 para R$ 7,51 em 18 de junho de 2026.

Os impactos também foram sentidos fora do Brasil. A Braskem Idesa, subsidiária no México, deixou de pagar juros de títulos com vencimento em 2029 e 2032, caracterizando evento de default. No fim de março, a empresa iniciou negociações com credores para reorganizar a estrutura de capital por meio de medidas judiciais semelhantes ao Chapter 11 dos Estados Unidos.

Em abril, a Novonor (antiga Odebrecht) assinou contrato para vender o controle da Braskem ao fundo Shine I, assessorado pela gestora IG4 Capital. A operação envolveu a transferência de cerca de 50,1% das ações com direito a voto e estava ligada a aproximadamente R$ 20 bilhões em dívidas da holding garantidas por ações da própria petroquímica. Com a conclusão do negócio, em junho, a IG4 passou a dividir o controle da companhia com a Petrobras.

A proposta apresentada aos credores prevê alongamento de prazos, redução de juros e períodos maiores de carência, sem aportes de novos recursos pelos acionistas nem conversão de dívidas em participação acionária. No início de agosto, informações da Reuters indicavam negociações avançadas para uma recuperação extrajudicial envolvendo a reestruturação de mais de US$ 10 bilhões (R$ 51,6 bilhões) em dívidas das operações no Brasil, Estados Unidos e Europa. Os diálogos incluíam detentores de títulos e bancos, mas ainda sem acordo, após credores rejeitarem uma proposta com carência de cinco anos para o principal e de dois anos e meio para juros. Segundo a Bloomberg, parte desses credores pressionava a Petrobras, acionista controladora, por um novo aporte; a estatal resistia, entre outros motivos, para evitar ampliar sua participação e consolidar a dívida da Braskem em seu próprio balanço.

Além disso, a empresa negociava a reestruturação de US$ 2 bilhões em dívidas da Braskem Idesa. Na semana passada, a subsidiária entrou com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos, após acordo com credores e acionistas, em movimento alinhado ao cronograma do pedido de recuperação extrajudicial no Brasil.

De acordo com fontes ouvidas pela Reuters, a Braskem pode levar de três a cinco anos para superar os problemas financeiros herdados da gestão anterior.

Em paralelo, a Justiça do Trabalho determinou que a Braskem arque com o plano de saúde de um químico diagnosticado com leucemia na Bahia. A empresa também anunciou a abertura de inscrições para seu programa de estágio.

Fonte: G1 Globo

Fonte: G1 Globo

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