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Casas Bahia pede recuperação judicial: juros a 14% e corrida digital expõem fragilidades do varejo

Casas Bahia pede recuperação judicial: juros a 14% e corrida digital expõem fragilidades do varejo

O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial em meio a um ambiente que pressiona o varejo brasileiro. Nos últimos anos, empresas como Marabraz, Americanas, GPA e Marisa também enfrentaram crises financeiras, com reflexos que vão de reestruturações e fechamento de lojas a processos de recuperação.

A combinação de juros elevados e crédito caro reduz o fôlego das famílias para parcelar compras e encarece tanto as dívidas quanto a operação das companhias. Ao mesmo tempo, marketplaces, o avanço do comércio eletrônico e a concorrência internacional intensificam a disputa por preços, comprimem margens e exigem investimentos pesados em tecnologia e logística.

Nesse contexto, ficam mais vulneráveis os negócios que geram pouco caixa na própria operação, mantêm estoques elevados, carregam estruturas físicas onerosas ou possuem dívidas difíceis de administrar. Uma parte importante dessa pressão nasce no orçamento doméstico: com a taxa Selic em 14% ao ano, o custo do dinheiro sobe e o crédito a consumidores e empresas encarece. O Relatório de Economia Bancária (REB), do Banco Central, indica que as taxas no país dificultam o parcelamento, sobretudo entre famílias de menor renda, que arcam com juros mais altos e adiam compras — um efeito que chega diretamente ao varejista.

A crise, porém, não é homogênea. Segmentos mais dependentes de financiamento sentem primeiro a desaceleração, enquanto outros são afetados de formas distintas. A Genial Investimentos relaciona a perda de fôlego a uma taxa de juros “significativamente contracionista”, com impacto maior nos setores mais ligados ao crédito. Essa dinâmica ajuda a explicar por que empresas expostas a vendas parceladas, estoques volumosos e redes de lojas extensas enfrentam uma equação difícil: consumidor comprando menos, dívidas mais caras e despesas fixas que persistem mesmo com vendas em queda.

Paralelamente ao crédito caro, o setor vive a transformação digital. Marketplaces e plataformas online ampliaram a concorrência e o acesso a produtos nacionais e estrangeiros. Para competir, não basta abrir uma vitrine virtual: é preciso investir em sistemas de informação, gestão de estoques e estruturas logísticas capazes de garantir entregas rápidas — requisitos apontados pelo geógrafo Igor Venceslau em estudo sobre a digitalização do território e o comércio eletrônico. Relatório do BTG Pactual reforça a necessidade de integrar lojas físicas e canais digitais e de fortalecer a presença online.

No caso das Casas Bahia, o canal digital em parceria com o Mercado Livre é citado como uma das principais alavancas de crescimento. Ao mesmo tempo, a companhia anunciou o fechamento de 298 unidades — cerca de 29% da rede — para cortar custos e redimensionar a operação. Há, contudo, nuances: o pesquisador Paulo Nassar observou que, na crise de confiança da Americanas após a fraude contábil, as vendas digitais recuaram mais que as das lojas físicas, sugerindo que a presença física pode servir como fator de confiança e resiliência em determinados momentos. O desafio não é ter ou não ter lojas, mas manter uma estrutura — física e digital — compatível com o volume de vendas e a capacidade de geração de caixa.

Especialistas destacam que a recuperação judicial é, em geral, o desfecho de dificuldades que se acumulam. “Quando uma empresa chega a uma recuperação judicial, normalmente estamos falando de uma dificuldade que foi se acumulando”, afirma a advogada tributarista Letícia Rocha Carneiro. No caso das Casas Bahia, a crise é associada a juros altos, restrição de crédito e aumento dos custos financeiros; o fechamento de lojas integra as medidas para reduzir despesas e ajustar o tamanho da operação. O advogado Marcos Pelozato resume: “Recuperação judicial apenas ‘compra tempo’”. O sucesso, dizem os especialistas, depende de a empresa voltar a gerar caixa de forma sustentável e operar com margens saudáveis.

Movimentos semelhantes ocorrem em outras reestruturações do setor. O BTG Pactual cita Azzas/Hering, Grupo SBF, CVC e a própria Casas Bahia entre as companhias que adotaram cortes de custos, controle de estoques e foco em maior geração de caixa. Em síntese, são mais expostas as empresas que precisam se adaptar enquanto lidam com baixa geração operacional, estoques altos, estruturas físicas caras ou dívidas complexas. Após a reorganização, vem a etapa mais difícil: demonstrar que, com menos dívida e uma operação redesenhada, ainda existe um negócio viável e capaz de sustentar a própria atividade.

Fonte: G1 Globo

Fonte: G1 Globo

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