Da Lua aos data centers em órbita: como a SpaceX quer destravar uma economia de trilhões
Mais de meio século após o primeiro passo humano na Lua, a SpaceX busca convencer investidores de que o próximo salto será econômico. Parte da avaliação de US$ 1,75 trilhão (R$ 8,93 trilhões) atribuída à companhia — que estreia na bolsa nesta sexta-feira (12) — reflete a expectativa de que, nas próximas décadas, mineração, manufatura e centros de processamento fora da Terra se tornem viáveis.
Nos documentos entregues à Securities and Exchange Commission (SEC), equivalente à CVM no Brasil, a empresa descreve o espaço como a maior fronteira econômica da história humana e sustenta que a redução dos custos de lançamento abre caminho para uma nova fase de expansão produtiva além da Terra. O plano evidencia uma revisão de ambições e uma reorientação estratégica: após anos destacando Marte como destino final, a empresa passa a dar protagonismo à Lua como etapa prioritária no curto e médio prazos.
Especialistas apontam que essa guinada também se alinha ao calendário do investidor institucional, já que operações lunares permitem testar tecnologias, montar uma base operacional e acumular avanços de forma mais rápida, dentro de horizontes de retorno compatíveis com o mercado. Em todos os cenários, um elemento é indispensável: o Starship, foguete desenvolvido pela companhia.
Nos planos da SpaceX, o Starship é tratado menos como um produto isolado e mais como infraestrutura para sustentar uma futura economia espacial. O projeto foi concebido para levar grandes volumes de carga e tripulantes de forma recorrente e economicamente viável, com reabastecimento em órbita como peça-chave para missões longas e para a expansão das atividades além da Terra. Para Franco Granda, analista sênior da PitchBook, o veículo representa uma mudança estrutural na exploração econômica do espaço, inaugurando uma fase em que missões deixam de ser pontuais e se aproximam de uma lógica industrial baseada em escala, frequência e reutilização.
Historicamente, o maior obstáculo do setor tem sido o custo de colocar pessoas e equipamentos em órbita. A proposta da empresa é tornar o acesso ao espaço mais previsível e rotineiro. Consultorias projetam que a combinação de reutilização e maior capacidade de carga pode reduzir drasticamente os custos de lançamento ao longo do tempo; se isso ocorrer, iniciativas hoje inviáveis tendem a ganhar escala e viabilizar presença mais permanente fora da Terra.
Diante da pergunta sobre onde estaria o retorno financeiro, Jan-Erik Asplund, cofundador da Sacra, avalia que a queda de custos pode abrir caminho para atividades produtivas que hoje não se sustentam. Em certos casos, fabricar fora da Terra seria uma vantagem: o vácuo e a microgravidade reduzem efeitos da gravidade terrestre que geram impurezas e deformações em materiais sensíveis, permitindo produzir itens de alto desempenho difíceis de replicar em solo. Entre os exemplos citados estão medicamentos produzidos em microgravidade, fibras ópticas especiais para telecomunicações e lasers, além de wafers de silício usados em semicondutores.
Outro vetor possível são as futuras estações espaciais privadas. Com a Estação Espacial Internacional se aproximando do fim de sua vida útil, parte dos recursos hoje destinados à sua manutenção pode migrar para plataformas comerciais em órbita, abrindo espaço para uma nova geração de laboratórios, fábricas e centros de pesquisa operados por empresas.
Para a SpaceX, o potencial do espaço vai além da manufatura. Nos materiais enviados à SEC, a companhia apresenta a ideia de usar o ambiente orbital para sustentar a expansão da inteligência artificial, por meio de uma constelação de satélites que funcionariam como centros de processamento de dados em órbita, alimentados por energia solar. Em órbita, o calor dos equipamentos poderia ser dissipado diretamente para o espaço, reduzindo parte dos custos de refrigeração associados a grandes data centers terrestres. A empresa pretende iniciar a implantação dessa arquitetura a partir de 2028 e aponta novamente o Starship como elemento essencial para transportar os equipamentos necessários. Nas contas de Asplund, trata-se também de disputar uma fatia do mercado global de nuvem, estimado em US$ 200 bilhões (R$ 1,02 trilhão), e há conversas com o Google para avaliar hospedagem conjunta de centros de processamento em órbita.
Embora Granda projete que a economia espacial global alcance US$ 1,8 trilhão (R$ 9,18 trilhões) até 2035, ele adota cautela em relação às iniciativas mais ambiciosas da SpaceX. Data centers orbitais e uma futura base industrial na Lua aparecem como possibilidades de longo prazo, não como fontes concretas de receita no curto prazo, pois dependem de avanços tecnológicos, operacionais e econômicos. Por isso, em seus modelos atuais, ele atribui receita praticamente zero a projetos como bases lunares e computação orbital.
A própria SpaceX descreve a economia lunar como etapa intermediária rumo a metas mais amplas, que incluem conceitos como uma civilização de Tipo II na escala de Kardashev, apoiada em energia solar.
Fonte: G1
Fonte: G1