PF amplia investigação do caso Americanas, mira acionistas e bancos e bloqueia R$ 54 bi; relembre o escândalo
A Polícia Federal, em conjunto com o Ministério Público Federal, deflagrou nesta quinta-feira (25) a segunda etapa da Operação Disclosure, que investiga irregularidades contábeis bilionárias envolvendo a Americanas. Nove mandados de busca e apreensão são cumpridos no Rio de Janeiro e em São Paulo. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro autorizou o bloqueio de bens e ativos dos investigados até R$ 54 bilhões, valor que, segundo laudos periciais, corresponde ao prejuízo estimado das fraudes. Nesta fase, o foco é apurar se acionistas da varejista e representantes de alguns dos maiores bancos privados do país tiveram participação no esquema. O caso veio à tona em 11 de janeiro de 2023, quando a Americanas divulgou fato relevante informando a identificação de inconsistências em lançamentos contábeis, inicialmente estimadas em cerca de R$ 20 bilhões, referentes aos nove primeiros meses de 2022 e a exercícios anteriores. Dias depois, o então presidente Sergio Rial deixou o cargo nove dias após assumir a função, assim como o diretor financeiro André Covre. À época, a companhia relatou operações de financiamento de compras, nas quais era devedora perante instituições financeiras, que não estavam refletidas de forma adequada nas demonstrações. Em 12 de janeiro de 2023, a revelação provocou forte turbulência no mercado: as ações foram submetidas a leilão na B3 diante da volatilidade e encerraram o pregão com queda de 77,33%, uma das maiores perdas diárias já registradas por uma empresa de capital aberto no país. Na ocasião, Sergio Rial afirmou que não se tratava de valores inexistentes, mas de registros contábeis inadequados ao longo dos anos, com origem nas operações de risco sacado — modalidade em que uma instituição financeira antecipa pagamentos a fornecedores e se torna credora da empresa. Segundo especialistas, no caso da Americanas essas obrigações não apareciam de forma correta nos balanços. As apurações também apontaram irregularidades em verbas de propaganda cooperada (VPCs), com registros de valores inexistentes ou inflados, sem respaldo econômico, de acordo com a PF. Em 13 de janeiro de 2023, a Justiça do Rio de Janeiro concedeu medida cautelar que impediu o vencimento antecipado de dívidas e suspendeu temporariamente cobranças, evitando o esvaziamento rápido de ativos e preservando a atividade da companhia. Na mesma época, vieram à tona informações de que executivos haviam vendido aproximadamente R$ 212 milhões em ações no segundo semestre de 2022, levantando suspeitas de uso de informação privilegiada. Em 14 de janeiro, a empresa comunicou que a correção das inconsistências exigiria a revisão de resultados de exercícios anteriores e alteraria significativamente indicadores de endividamento e capital de giro. Credores, como o BTG Pactual, passaram a contestar judicialmente as medidas de proteção, e as ações seguiram em queda nos dias seguintes. Em 19 de janeiro de 2023, oito dias após a revelação das inconsistências, a Americanas ingressou com pedido de recuperação judicial na 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro. A companhia informou ter apenas R$ 800 milhões em caixa, ante os R$ 8,6 bilhões divulgados no balanço do terceiro trimestre de 2022, o que tornou a situação financeira insustentável. O caso se tornou uma das maiores recuperações judiciais da história empresarial brasileira, envolvendo dívidas superiores a R$ 50 bilhões. Em março de 2026, a empresa informou ter cumprido as obrigações previstas no plano de recuperação com vencimento até dois anos após sua homologação e protocolou o pedido de encerramento do processo. A Justiça aceitou o encerramento, marcando a saída formal da companhia da recuperação judicial. No processo de reestruturação, a Americanas vendeu ativos estratégicos, como a holding Uni.Co (das marcas Imaginarium e Puket), adquirida pelo grupo BandUP!, e reduziu sua estrutura com fechamento ou desmobilização de unidades menos rentáveis, em linha com a estratégia de simplificação do negócio e geração de caixa. Com o avanço das apurações, a PF concluiu que ex-executivos teriam manipulado deliberadamente resultados financeiros para apresentar caixa artificialmente elevado, ocultar dívidas, inflar lucros e melhorar indicadores perante investidores, elevando indevidamente o preço das ações e se beneficiando por meio de bônus e operações com papéis da companhia. Em junho de 2024, a PF deflagrou a primeira fase da Operação Disclosure, com 14 mandados de busca e apreensão contra ex-executivos, além de pedidos de prisão preventiva do ex-CEO Miguel Gutierrez e da ex-diretora Anna Christina Ramos Saicali, que estavam no exterior. As investigações identificaram indícios de manipulação de mercado, uso de informação privilegiada, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Na segunda fase, realizada nesta quinta-feira (25), a PF ampliou o escopo para apurar a eventual participação de acionistas e representantes de grandes bancos privados. Além dos nove mandados, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 54 bilhões em bens e valores dos investigados. Segundo a PF e o MPF, as apurações apontam, em tese, indícios dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa. Os envolvidos teriam recebido bônus milionários atrelados ao desempenho financeiro e lucrado com a venda de ações supostamente valorizadas artificialmente.
Fonte: G1 Globo
Fonte: G1 Globo