PF aponta fraudes no Banco Master, CDBs de R$ 50 bi sem comprovar liquidez e possível elo com PCC; pai de Daniel Vorcaro é preso
Henrique Vorcaro foi preso nesta quinta-feira (14) na quinta fase da Operação Compliance Zero. Ele é pai de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central (BC) no fim do ano passado após a prisão do banqueiro. A investigação, que começou com suspeitas de venda de títulos financeiros falsos, ampliou-se e agora apura um conjunto mais amplo de crimes atribuídos a Daniel Vorcaro, incluindo lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, intimidação, coerção e invasão de dispositivos informáticos, entre outros, segundo a Polícia Federal (PF).
De acordo com a PF, o núcleo do esquema consistia em inflar artificialmente o valor do Banco Master para apresentar falsa solidez e atrair bilhões de reais de investidores, viabilizando operações sem garantias reais. Investigadores apontam a existência de uma "linha de produção" de documentos artificiais no banco: funcionários teriam criado contratos, extratos, planilhas e procurações para simular empréstimos e operações que não existiram. Em diversos casos, pessoas registradas como clientes afirmaram não reconhecer os empréstimos lançados em seus nomes. A suspeita é que carteiras de crédito fictícias sustentavam registros patrimoniais inexistentes, produzindo uma aparência artificial de riqueza.
Um exemplo citado na investigação envolve títulos antigos do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc): ativos comprados por cerca de R$ 850 mil teriam sido registrados como se valessem mais de R$ 10 bilhões. O Banco Central, por sua vez, identificou falhas graves em certificados de depósito bancário (CDBs) e inconsistências incompatíveis com operações reais. Segundo o BC, o Banco Master emitiu R$ 50 bilhões em CDBs, prometendo juros acima das taxas de mercado sem comprovar que dispunha de liquidez para honrar esses títulos.
A PF também afirma que Daniel Vorcaro utilizava uma rede de fundos de investimento e empresas para dificultar o rastreamento de recursos. Ativos teriam circulado entre diferentes fundos administrados pela Reag Investimentos, gestora responsável por negociar ativos ligados ao Banco Master, em uma espécie de "ciranda financeira". O objetivo, segundo os investigadores, seria ocultar perdas, movimentar recursos entre empresas do grupo e criar uma percepção enganosa de rentabilidade.
Os investigadores apuram ainda possíveis ligações entre a estrutura financeira associada ao Banco Master e a Operação Carbono Oculto, que investiga lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). A PF indica que o mesmo mecanismo usado para inflar resultados do banco aparece em operações de empresas suspeitas de conexão com a facção. Um dos focos é o fundo Gold Style, administrado pela Reag, que teria recebido cerca de R$ 1 bilhão de companhias apontadas como ligadas ao PCC, como Aster Petróleo, BK Bank e Inovanti. No mesmo período, o Gold Style teria enviado cerca de R$ 180 milhões à Super Empreendimentos, que teve como diretor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. A PF também investiga se recursos utilizados na compra de participação da SAF do Atlético-MG tiveram origem em operações ligadas à lavagem de dinheiro.
Para sustentar e proteger o suposto esquema, a PF afirma que Daniel Vorcaro comandava uma estrutura organizada, com divisão clara de tarefas. Segundo a investigação, Daniel e o pai conduziam dois braços operacionais coordenados por Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, apontado como operador violento vinculado às fraudes financeiras. Mourão morreu após tentar suicídio em uma cela da PF em Belo Horizonte. Ainda conforme a PF, os grupos teriam recorrido a ameaças, intimidação e monitoramento de jornalistas, concorrentes e ex-funcionários para resguardar interesses econômicos e pessoais da família Vorcaro.
A PF sustenta que Daniel Vorcaro era a figura central da estrutura criminosa e que Henrique Vorcaro atuava como articulador e financiador, sendo responsável por pagamentos mensais de cerca de R$ 400 mil para manter as atividades do grupo. A investigação também aponta tentativa de influenciar órgãos de fiscalização: Daniel seria acusado de pagar até R$ 1 milhão por mês a servidores da alta hierarquia do Banco Central para antecipar fiscalizações, revisar documentos do Banco Master e fornecer informações privilegiadas. Por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), servidores investigados foram afastados e passaram a usar tornozeleira eletrônica.
Além disso, a PF investiga suspeitas de infiltração dentro da própria corporação. O agente Anderson Wander da Silva Lima e a delegada Valéria Vieira Pereira da Silva teriam realizado consultas indevidas a sistemas sigilosos para monitorar apurações envolvendo Daniel e Henrique Vorcaro, com o objetivo de obter informações estratégicas e dificultar o avanço das investigações.
Outro eixo da apuração trata de ataques cibernéticos e espionagem digital atribuídos ao núcleo de hackers “Os Meninos”. O grupo teria invadido sistemas e acessado ilegalmente informações sigilosas de órgãos como a PF, o Ministério Público Federal e agências internacionais de investigação dos Estados Unidos e de outros países, como a Interpol e o FBI. A finalidade seria descobrir previamente o que as autoridades já sabiam para permitir que os investigados se preparassem antes de operações policiais. O grupo também é acusado de derrubar perfis em redes sociais, monitorar adversários e acessar dados de forma ilegal.
Segundo a PF e o Ministério Público, as atividades teriam continuado mesmo após as primeiras fases da Operação Compliance Zero, com manutenção de pagamentos, monitoramentos e ações clandestinas apesar de buscas, prisões e bloqueios judiciais. Para os investigadores, isso indicaria elevada capacidade de reorganização e risco de continuidade delitiva, argumentos usados para pedir novas prisões preventivas nesta quinta-feira (14).
A defesa de Daniel Vorcaro contestou as medidas. Em nota, afirmou: "Constata-se que decisão se baseia em fatos cuja comprovação da respectiva licitude e o lastro de racionalidade econômica ainda não estão no processo. E não estão porque não foram solicitados à defesa e nem a ele. O ideal seria ouvir as explicações antes de medida tão grave e desnecessária. Cuidaremos imediatamente de demonstrar a estamos a dizer ainda hoje." Em troca de mensagens com a então namorada, Daniel teria dito que "negócio de banco é igual a máfia", segundo reportagem exibida pelo Jornal Nacional.
Fonte: G1
Fonte: G1