Varejo em xeque: por que algumas gigantes recorrem à recuperação judicial enquanto outras avançam
A crise da Casas Bahia pode limitar ainda mais a oferta de crédito no setor e expõe um quadro de seletividade no varejo brasileiro. Os pedidos de recuperação judicial de Casas Bahia e Marabraz, anunciados no último domingo (16), são novos capítulos de um movimento que atinge com mais força empresas voltadas a consumidores de renda média e baixa. Em um ambiente de juros elevados, crédito restrito, endividamento das famílias e consumo enfraquecido, pagar dívidas e gerar caixa tornou-se um desafio.
Especialistas do mercado financeiro afirmam que o setor passa por uma transformação estrutural, que envolve revisar operações, fechar lojas e redefinir prioridades estratégicas para manter competitividade. Ao mesmo tempo, companhias que fizeram ajustes com antecedência aproveitam a vulnerabilidade de rivais para ganhar participação.
Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, não se trata de uma crise generalizada do varejo. Ela enxerga uma “seleção empresarial”: empresas com estruturas financeiras e operacionais mais sólidas atravessam melhor o atual cenário.
Varejistas dependem fortemente de crédito para financiar estoques, operações e planos de expansão, além de contar com o poder de compra do consumidor, o acesso ao crédito e o parcelamento. Os casos de Casas Bahia, Marabraz e do Grupo Toky (Tok&Stok e Mobly) ilustram os efeitos do crédito mais caro e do consumo em queda. O mesmo fenômeno atingiu nomes como Ricardo Eletro, Americanas, Casa & Video, Le Biscuit, MMartan, Artex, Saraiva e Livraria Cultura, que recorreram a recuperação judicial, falência ou outras reestruturações.
Esse movimento também reflete a maior variedade de produtos oferecidos por plataformas digitais e o menor valor médio gasto em cada compra. “Como o consumidor continua comprando itens essenciais, segmentos ligados a bens básicos e grandes plataformas digitais seguem operando com margens saudáveis e em expansão”, acrescenta Nossig, da Nomad.
Parte da readequação já aparece entre grandes redes, que vêm revendo modelos de crescimento, fechando lojas ou desacelerando a expansão física para reduzir custos. Ainda assim, não se espera uma recuperação rápida dos resultados nem das ações das varejistas tradicionais enquanto os juros permanecerem elevados. Para Brás, a queda da Selic não é um “botão de reset”: o consumidor precisa recuperar renda disponível, a inadimplência tem de ceder e o crédito precisa chegar em condições melhores. Além disso, há defasagem entre o corte de juros e o alívio no carnê, no financiamento ou no capital de giro — e, para empresas fragilizadas, alguns meses podem representar uma eternidade financeira.
Nesse contexto, companhias mais vulneráveis podem virar alvo de fusões, aquisições ou parcerias estratégicas. O e-commerce tende a ganhar ainda mais espaço e consolidar sua participação.
A crise também afeta investidores. As ações do Grupo Casas Bahia (BHIA3) acumulam uma das maiores quedas da bolsa brasileira dos últimos anos: de mais de R$ 400 no auge, em 2020, para centavos. Com sinais de desaceleração da economia, especialistas projetam menor peso do varejo nas carteiras.
Mesmo assim, empresas com caixa robusto, baixa alavancagem, geração consistente de fluxo de caixa, marcas fortes e capacidade de ganhar mercado podem sair fortalecidas, diz Brás. Nossig avalia que o mercado será mais rigoroso na seleção das companhias, o que tende a favorecer o varejo alimentar e as redes de farmácias. “Os próximos vencedores provavelmente serão definidos menos pela velocidade de abertura de lojas e mais pela capacidade de gerar caixa, girar estoques, controlar o endividamento, integrar canais de venda e fidelizar consumidores sem depender continuamente de incentivos”, conclui Brás.
Fonte: G1
Fonte: G1